a inconstante possibilidade do ser (e os tantos desejos que me deixam tonta)

O que nos faz temer a morte? A ideia da finitude de um corpo, narrativa ou trajetória traçada agora enterrada meia a escombros ou dissipada em pó, sem carinho, sentido ou perspectiva para um além que não aquele físico? Ou talvez simplesmente o fato de adquirirmos a consciência do entrave das possibilidades de intensidade e de desejo, que foram esgotadas, dadas limites, postas em uma caixinha de memórias para que os que ficaram não se esqueçam do nosso corpo e voz?
Não sei, parecem-me corretas ambas e ao mesmo tempo nenhuma.
Retomar o arduo trabalho de palimpsista nao poderia ser de forma mais agradável do que ter que reescrever um testamento. Decidi não rostificar o sujeito, muito menos dar-lhe um apelido gracioso. Toda aquela situação mórbida me tornou menos irônica em meus recortes, ao mesmo tempo que acidez subia o estômago para cada volta material que o falecido dava no mundo, a cada imóvel, jóia ou qualquer coisa fútil que parecia ser deslocada a um outro corpo ainda em terra, de pouco afeto, sem nenhuma ação além do giro do capital. Meus olhos só pararam de admitir aborrecimento ao lerem as palavras “maquinação do acaso”, ou ainda, “acelerando os absurdos da intensidade”. Para a neta mais nova, foi o que foi deixado: um aparato acelerativo, que de tempos em tempos propunha uma movimentação, um ataque dispersivo, um desejo a ser realizado. Na condição de herança, o tempo expandido e o burburinho do absurdo pareciam ser lugares interessantes para se possuir. Mas como pode alguém receber essa condição de posse?
Nesse meio tempo de férias presenciei, em praias ventosas de mares violentos, a migração de um grupo de borboletas monarcas. Para além da areia que rasgava minha cara queimada, uma leva de asas laranjas de fragilidade controlada começaram a vir em minha direção. O movimento era constante, desviando dos banhistas, salva-vidas, pedras, predadores e mariscos em geral que poderiam atrapalhar o seu rumo. Em equação matemática, vento, asa, velocidades somadas, bombardeio de insetos em mutação. E, como condição de instabilidade da vida, daquele grupo de seres que sobrevoavam rapidamente em constante aceleração, pousou em minha mão uma pequena borboleta com a asa desgastada. Ela parecia sussurrar-me coisas que eu não lograva ouvir pela quantidade de zumbir do vento. E ali ela ficou, não levantou voo. O seu momento havia passado, e seu desejo, na palma da minha mão, parecia apenas querer estar.
A maquinação dos desejos intensos do sujeito falecido nada mais era do que o vento para a migração das borboletas, um último querer de que aquela neta querida abusasse do tempo como gatilho frágil, e que, enquanto pudesse, tomasse a intensidade e a aceleração como seu mantra para sobrevoar terras desconhecidas, sem mesmo saber se o destino final será de fato um destino ou mesmo um final. “Não emoldurem minha foto para colocar na sala de estar. Guardem-a como um símbolo, no fundo de um baú escuro, como uma cantiga para quando quiserem retornar a um terreno familiar, para assim poderem recordar de mim.”
Abraço com os olhos o final daquele testamento. A nao rostificação permitiu que eu, em um ato pseudo-egoista, me posicionasse na intenção de corpo daquela neta. “Não atenha-se a memórias, elas atrasam o desprender da linha”. Minha juventude grita pelo dogma da improvisação, como um eco daquela máquina de herança, e sinto que cada vez mais vivo sobrevoando em aceleração, consciente da ação do vento, do paradoxo dos destinos. Talvez meu avô não tenha me deixado a maquinação perfeita, instruções ou instrumentos de uso. Mas vejo-me tonta dentre tantos desejos e possibilidades; o zumbido no ouvido é constante, não do vento, mas da intensidade que corrói a matéria e de vez em quando os tímpanos. Uma vez um amigo me disse que o seu segredo para viver a vida leve era não acumular muita memória. Quiçá não a pilha de imagens que ocupam espaço indevido, ou a porcentagem do dia que baseia-se em pura rotina, mas sinto que – pelo menos eu – preciso manter a sua fotografia no baú escuro, para ter certeza que estará lá todas as vezes que eu quiser abrir. Afinal, atar-me ao presente não significa desligar-me do que se fez passado. Uma palimpsista sabe muito bem disso.
Sinto-me monarca, em constante transformação, máquina-corpo no sistema rede territorial do hoje. Não controlo meus desejos: reescrevo com ânsia acelerada e coração apertado esse testamento, para que a próxima neta também possa brincar de esconde-esconde.
Nesse jogo de mundo, me parece que tememos mais a morte do que tensionamos a vida, porque sabemos nossa condição frágil de existência e deslocar-se sempre carrega uma possibilidade de risco. Talvez esteja eu tendo apenas uma ebulição de sentidos e desejos carnais que impedem-me de raciocinar mais tranquilamente. Liguei a máquina em tempo de ver o próximo passo: a juventude ataca, ela anseia por diversão.
– [ ]

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google photo

You are commenting using your Google account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

Connecting to %s