terra natal e meus olhos cor de criança

O trânsito do ônibus me deixa quase enjoada. São mais de 10 horas presa nesse veículo ambulante que não tem pernas e só motor máquina movida a gás, ou seja, sem alma ou esforço qualquer. Deslocar-se sem perda, força ou suor. Soa estranho. Coisa de privilegiado; e eu, indo ao reencontro dos maiores dos privilégios: a cor que deu origem aos meus olhos. Parece patético, mas tentarei explicar. Primeiramente, nem cor é: espelhamento do céu, reflexo azul escuro do mar gélido do sul do continente, pela concentração de algas misteriosas, pelas inúmeras formações rochosas e delinquentes, pelas correntes vindas da Antártica, pelo sol que arde forte mas não infiltra tão fundo. A linhagem de genes vem de longe no tempo: meu tataravô abriu os olhos pela primeira vez revelando as cores da Costa Amalfitana, e seus filhos, refletindo o conhecido ao reger suas memórias, nasceram da cópia daquela cor, sempre distinta, como xerox que vai perdendo a intensidade. Daí meu avô decidiu atualizar a coisa, negar as raizes europeias e reiterar aquilo que o cercava, o novo território, la marea alta de todas las tardes: o mar não mais Mediterrâneo, mas denso, azul-escuro quase cinza, d’onde saltavam os peixes-rei a comer mariscos no final de fevereiro, d’onde ele próprio ia mergulhar. De meu vô, herdei o mar do Uruguay. Em dias nublados, cinza; em dias de sol, azul turvo. Viajo na ânsia de reencontrá-lo lá, perdido no meio dos rochedos da Costa invernal. E viajo, desta vez, na retomada de sua partida. Logo antes de entrar no ônibus, uma demanda de trabalho. Nunca antes me havia acontecido tal coisa como palimpsista: um texto meu, na verdade, um post meu, de seis anos atrás, uma lembrança do Facebook, da tentativa de transformar esse sentimento de partida do meu avô em escritura, poesia, cantiga de ninar, estava agora em minhas mãos, para ser apagado. Abandonar as próprias palavras. Antes, parecia-me que as respostas vinham de forma mais concreta. “Afinal, que cor são seus olhos?” Azul, eu respondia. Esta semana, coincidentemente, antes mesmo de receber esta proposta, respondi a um amigo sobre os tons daquele mar que tanto me abraçou na infância. Tradução em olhar, foi a única coisa que consegui pensar. Já dizia Caetano: “Azul da pura memória de algum lugar”. O que escrever por cima daquelas palavras tortas de despedida? Meus próprios “adeus” sem foco, da lágrima partida ao meio? Talvez um tom. Peguei sem pensar duas vezes os pigmentos em barra. A aquarela azul bic borrou por cima de toda escrita, mesclando-se com a própria tinta preta Arial de sequência numérica 0 e 1, nesse lugar entre o virtual, o invisível e a lembrança. Uma enorme mancha azulada agora toma conta da minha vista: se aperto os olhos, até consigo ver os peixes saltitantes, ou talvez o branco da espuma das ondas esculpidas pela ventania da tarde. Não aperto demais porque se não fico tonta. O enjoo do balanço do ônibus é inevitável. Fecho os olhos, cansada de tanto azul. Na terra natal, só a saudade me espera de braços abertos.

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