Saudades que João ensinou a ter

Meu compartilhamento de histórias será breve, pois me situo baixo cinco camadas de cobertores, os olhos caídos em cansaço enquanto o corpo elétrico chora por um carinho ausente de calor e presença. A semana iniciou cheia de saudades daquele que dizia chega!; acredito que os tantos manifestos vieram a lamentar a perda daquele que logrou traduzir tão minuciosamente em versos as palavras que muitas vezes a boca não pronuncia de vergonha. Daí João fez certo: ensinou que a saudade vem pro bem mais que pro mal, que esse sentimento que late no peito é porque o outro importa ou, pelo menos, te rouba um pedaço. Ai daqueles que fingem não ter saudades. Eu como boa aluna de João exclamo sempre que posso a falta do abraço quente, ainda que, na maioria das vezes, sejam palavras veladas pelo tecido social da vida. Mas essa realidade de viver sem ele não me escapa os dentes, digo que retorne mas com a condição de que não deixe de ir. Meu primeiro grande amor adulto se revela no burburinho dos abraços e beijinhos e carinhos mesmo que com fins, mesmo que sem nexo ou linha de tempo. Obrigada João pelas linhas tortas que ousastes enfatizar, no tanto mar e amar de uma paisagem de mim às vezes delineada, às vezes desafinada, mas em constante partida. E agora? Em qual abraço vai doer tua lembrança? Talvez naquele quente debaixo das cobertas por qual almejo noite à noite. E se só nele te encontro, me arrisco pelas saudades. Até lá.

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