sobre a relação causal dos dias

tem dias que a gente se sente imbecil. imbecil é uma palavra forte que em português usamos de maneira branda, que nem idiota. meu pai prefere ser chamado de qualquer outro nome do que qualquer um desses. “idiota é muito forte”, ou ainda “já parou para pensar sobre o que é ser idiota?”. mas me refiro à esses dias merdas que a gente chega em casa tira o sapato com a maior preguiça do mundo e até isso dá errado, o cadarço fica preso e tem que fazer força machuca o tornozelo, a água da pia espirra pra tudo quanto é canto, você se baba comendo, bebendo, parado, a luz do quarto não acende, o computador tá sem bateria, qualquer coisa. alguns chamam de inferno astral deslocado, esses dias. tem outros dias em que a gente se sente bem, tudo funciona, as portas se abrem naturalmente, no céu tem sol, ou chuva e ela é boa, o vento bate na cara e faz carinho, parece que as flores se abrem ao seu passar, a escrita flui, as pessoas lhe cumprimentam na rua, seu amante manda uma mensagem dizendo que tem saudades, aquelas coisas. a mudança na relação causal dos dias me intriga, quer dizer, como é possível que um dia seja assim e outro não? o que delimita isso? como em uma mesma noite todos da casa dormem mal? daí vem aquelas ideias sobre a lua e sua influência nos nossos corpos aquosos de 80% líquido, e como o que faz o dia ser merda ou top é basicamente também nossos corpos e a forma como se relacionam com o entorno. então tem toda uma questão cósmica por trás da regência das horas e dos momentos, dos diálogos e das inspirações.

caminho pelo centro da cidade do rio de janeiro, exemplarmente caótico, aquela mistura de imanência merda-top tudo ao mesmo tempo. gosto de caminhar por aqui. carrego na mão direita a caderneta cheia de textos a serem reescritos, e na esquerda uma penca de vinis antigos comprados na esquina da praça tiradentes. o meu trânsito entre os estados do dia recém começou, estou vendo ele ali, prestes a acontecer. não sei ainda como vai ser, muito menos como vai acabar e como vou classificá-lo. dicotomias, ah, como adoramos dicotomias. meu olhar acusa o fracasso do dia nos passantes que se apresentam: um pouco do sentido da imbecilidade de hoje vem com a pandemia do coronavírus, essa loucura mundial que inaugurou a nova década com uma estética sci-fi ótima para criar ótimos dias de inspiração e péssimos dias de infecção. até morte. imbecilidade porque o vírus é real, a situação é real, mas a imagem da realidade é de alguma maneira imbecil. ou me sinto assim por não saber a real dimensão da coisa. as pessoas agora tem mais medo de andar na rua do que tinham antes, ou pior, andam mascaradas e maltratam quem espirrar no trem, aquelas coisas da sociedade de cansaço reproduzindo sucessos de bilheteria. antes de chegar aqui desviei de uma mulher tossindo no metro, fiquei longe de uma jovem contração asiáticos. sinto-me imbecil por fazer parte dessa loucura. sinto-me imbécil por ser frágil, corpo-água que é regido pela lua, sem nenhum controle dos próximos acontecimentos, sem saber se já fui infectada pelo vírus, se posso morrer por causa disso, ou se sou mera transmissora.  caminho mais um pouco cuidando a quantidade de ar que coloco para dentro dos pulmões. um pouco mais a frente cruzando o trilho do vlt me deparo com um casal apaixonado em uma troca intensa de saliva, tocando o fodase para o coronavírus. ousados, eu pensei, mas desejo fazer a mesma coisa. as mesmas pessoas que xingaram o senhor no trem agora também admiram o amor jovem e babam na inveja de ter aquilo para si. o turning do dia. 10 passos e, de alguma maneira, a condição do dia tinha mudado, de alguma maneira. em meio ao caos no mundo, qual a potência de um beijo? soou brega mas não foi a intenção. a gente deixa de se amar por tão pouco…. os dias geralmente são merdas sem carinho. como um gesto muda meu dia! eu mesma escorrego em minha baba e deixo cair no paralelepípedo todos os textos: processos e mais processos jurídicos, um livro antigo de medicina, algumas apostilas escolares. merda. uma senhora de mais ou menos uns 90 anos, muito branca, se agacha facilmente para me ajudar a recolher tudo. – fiquei nervosa também, sorte que não caí. você faz o que com tudo isso? – eu escrevo por cima. – ah, como papel de rascunho? – não, tipo uma edição, transformo em outras coisas. – mas porque você faz isso? – ué, senhora, não existem mais seringueiras no mundo. a produção de papel já era. é isso que fazemos no meu escritório, reescrevemos documentos, transformamos eles em outras coisas. – quais outras coisas? um tanto irritada com a falta de noção da situação do mundo, do vírus do antropoceno, pego no bolso uma caneta bic azul e rabisco rapidamente um trecho de gabriela mistral por cima de um dos processos:

“Beijos de chamas que em uma trilha impressa
carregam os sulcos de um amor proibido,
beijos de tempestade, beijos selvagens
que só nossos lábios provaram.”

a senhora pegou o papel com cautela e seguiu seu caminho. a lua surge no céu como quem diz “viu, eu avisei”, e acaba que aquele dia começou de um jeito e terminou de outro. gosto dos dias assim. o pessimismo de um mundo em emergência revelado àquela juventude empalhada em formato de senhora me fez sentir meio imbecil. não precisava ter contado à ela das seringueiras. mas foi assim que aconteceu, e não tem muito o que eu possa fazer.

parece que estamos agora em quarentena. no trabalho, poucos vieram, só os que não precisam pegar transporte público. os colegas usam máscaras. passo álcool gel de 5 em 5 minutos, por não admitir cobrir meu rosto daquela maneira. são 2 da tarde de quarta-feira e em cima da minha mesa foi deixada uma carta com meu nome. foi só depois do segundo café que resolvi abrir. ali estava escrito: “contraí coronavírus, em breve morrerei. enquanto meus pulmões não falham, tento beijar calorosamente àqueles que amo. sei que não devo fazer isso, mas é o que meu corpo pede. escrevo-lhe pelas seringueiras.” a carta, escrita por cima de minha própria caligrafia, revela um outro dia e uma nova condição da folha. molho a mesa com lágrimas, danifico a tela de meu computador. merda. o dia começou assim, meio merda e meio top.

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