o dia em que a demanda por palimpsestos aumentou drásticamente

Recuperei, em um almoço de família, uma carta que enviei à minha mãe no meio da quarentena que aconteceu no ano de 2020. Seguem os pensamentos da época:

Mãe, são quase uma da manhã, é sexta, penso que tudo bem não trabalhar amanhã, posso me dar um dia de folga. O que você acha dessa decisão? Estou tonta, mas a questão é que com esse novo regime de trabalho de casa, online e afins, a demanda por palimpsestos aumentou, e estamos diante um tsunami de textos considerados obsoletos, prontos a serem reescritos. Teorias econômicas e sociais são a maioria, como você pode imaginar. Planos, planners e projeções a curto prazo, também são muitos. Convites de casamento, chá de fraldas, bodas de ouro, nem se imagina. Fernanda, nossa prima, é uma que decidiu fazer um chá de fraldas online. Que idéia é essa? Mas por isso fico um pouco receosa de me dar um dia de folga no meio desse caos, apesar das suas recomendações. Tenho também sentido uma necessidade de escrever sobre outras coisas, sobre minha vida dentro de casa, sobre minha nova rotina, e como isso, de alguma maneira, também vem afetando meu trabalho como palimpsista. Sei que você nunca aprovou muito este meu trabalho, mas tudo bem, espero que um dia você veja  a importância que tudo isso tem. Sobre a rotina, vejamos um exemplo: tenho acordado um tanto tarde, por não ter horas a cumprir para chegar e sair no escritório, e um desses dias escrevi sobre os potenciais do sono longo como um método de produção subjetiva de devires, ou melhor, como dormir mais faz com que, inevitavelmente, sonhemos mais – por mais que não lembremos dos sonhos – e assim, produzimos narrativas e projeções internas e subjetivas suficientes para, se um dia for possível acessar isso de maneira fácil, termos uma ou ainda duas vidas extras quais produzimos durante o sono. Irresponsável, eu sei, não me xingue. Não tenho nenhum embasamento científico para ter escrito tal coisa. Mas também não estou publicando um artigo, sabe? Mas o fiz, e pior, Publiquei. Outro exemplo dos meus dias: compramos coentro e o bichinho dura, usamos na guacamole, no feijão, no tempero da carne, e ainda resta na geladeira. Escrevi então sobre os poderes aromáticos do coentro para o tratamento de ansiedade e depressão: cozinhe, corte o coentro bem pequeninho, você vai se dar conta que o tempo passa lento e que as pequenas coisas tomam atenção, que o sabor da sua comida vai ser outro, o retrogosto vai surgir, enfim, você vai se tornar uma pessoa mais aberta, atenta e criativa.  Eu sei que você odeia coentro, mas foi quase como uma auto-ajuda mascarada de bela gil, sabe? Bom, meu maior problema tem sido pensar de onde vem essas ideias? Talvez seja despedida. Talvez esteja ficando louca com a quarentena. Não sei. Mas que há tido muito coentro em minha vida, é verdade. Coentro e paixão. Aqui vem coisa boa: enquanto a maioria das pessoas sofre com a solidão da quarentena, estou bem provida de carinho e venho recebendo generosas doses de amor, no café, nas composições dedilhadas no violão que hora ou outra fazem minhas noites. Você ainda não o conhece, mas em breve estaremos juntos e tenho certeza que você irá adorá-lo. Por essas da vida de amor que me doem reescrever os convites de casamento, pois no fundo quero que aconteçam. A psicologia da quarentena é uma doideira. Acredito que as pessoas sairão dessa piores do que entraram. De alguma maneira a rua salva, a rua alivia, ela tira a tensão ao nos colocar em outra, outro tesão do encontro improvável. A falta da rua me é cara. Tenho estado um pouco deprimida também por só escrever e matutar acontecimentos internos, relacionados ao morar (que pior, nem é meu, mas tento que seja, pois morar também transcreve-se como a-amor-r). Cada vez me dou mais conta de que preciso dos encontros do dia para me desviar, para sair dos padrões que a rotina impõe. É distópico: nos comunicamos pela janela, o garoto toca uma melodia no clarone enquanto os outros batem panela contra o pronunciamento do presidente, ou anti-presidente, anti-país, enfim, a negação das crises que nos cercam, a epidemia, a ética, a estética… Escrevo escrevo escrevo e o tempo não passa, não podemos nos ver, enquanto que estou cada dia tentando ver o fora dentro, trazer as plantas da rua pra crescerem no quarto, esse tipo de coisa. Mas claramente a quarentena está afetando minhas qualidades críticas do que fazer e de como atuar como palimpsista. Penso que talvez seja melhor eu me demitir, mesmo. Ou tirar uma folga. Como pedir demissão se a tradução é intrínseca ao ato de escrita? Pararei de escrever? A única coisa que não posso parar de fazer, agora, é de escrever. Como ficaria o coentro, ou as interpretações dos sonhos? Também canto e danço mas é nas palavras que o sentido acontece. Talvez o sentido de estar em casa há ainda de ser encontrado, o sentido da voz pela janela, o valor do sussurro que beija ao invés do grito de encontro na multidão. É momento, acho, de valorizar essas outras manifestações de afeto, mesmo estando sozinho. De pensamento, mesmo que a loucura da imensidão tome gosto. Do gesto, de si consigo mesmo, com as plantas, com a casa… reviro ideias na cama. Não sei bem sobre o que escrevo, se escrevo para tentar te encontrar, se é sobre quarentena e sobre trabalho, sobre meu próprio texto precisar ser reescrito, sobre jogá-lo na pilha de roupa suja e amanhã começar a trabalhar de novo, sobre fechar os olhos e não ver futuro, não ver nada, não ver você, tem remela no canto do olho, tem fascista no governo, tem população saindo na rua de máscara com a bandeira do brasil exigindo voltar a trabalhar, tem abacate amadurecendo e coentro esperando na cozinha… tá tudo confuso, já são três semanas dentro do mesmo apartamento. A clareza são os bons dias e os cafés da manhã em conjunto, o sol que tenta entrar por entre as folhagens da amendoeira, os sorrisos sinceros de um sentimento que veio para ficar e que bom, que sorte. Não precisamos nos preocupar com solidão. Com ficar loucos, talvez sim. Amanhã é novo dia de trabalho, preciso deixá-la por aqui, apesar de ser sábado os textos são muitos, a desconstrução se mostra cada vez mais necessária, das cenas, do isolamento, do mundo. Talvez transforme tudo em cartas e distribua no bairro, mande outra para você, cada uma com um fragmento brega sobre exílio ou sobre o potencial do lugar casa para a criação e transformação. Ou em variadas receitas com coentro. É, vou fazer isso. Não te mando as com coentro, não se preocupe. Talvez perca o emprego, mas pelo menos não perco o tesão.

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