guia mindfullness para o fim do mundo

Os dias passam lentos mas não é problema: tenho me acostumado às rotinas slow, pensando o dia-a-dia, o menú do almoço e do jantar, as olhadas para fora da janela e a busca pela fresta de sol que entra pontualmente ao meio dia pela janela lateral da cozinha. Eram 21h da noite quando fui olhar meus recebidos do dia: ao que de longe parecia uma receita de bolo revelou-se, de perto, um guia para a prática de mindfullness, datado de março de 2020. Peguei o papel gasto que mais parecia ter sido um flyer uma vez na vida, as cores vibrantes e as letras garrafais com uma fonte péssima chamavam atenção para o texto: pratique! medite! preste atenção no agora! dedique-se à prática! esta é a chave do futuro! esteja presente! você só é você, estando aqui e agora no mundo! e por aí vai. Cansei a vista, fiz um “ai não” com a cabeça, peguei os óculos, e sentei à mesa, uma taça de vinho branco para acompanhar o pesadelo que viria pela frente. Afinal, como transformar esse texto em algo atualizado, novo, que sirva? Já não estaria o papel infectado pelas palavras de ordem energética ali impregnado? Decidi buscar referências em minha memória. A primeira coisa que me veio à mente foi um belíssimo documentário que uma vez assisti sobre o Osho e sua colônia pela paz-armada no interior dos Estados Unidos, as casas construídas iguais e a orgia liberada, a transição da Índia para o way of life, os cadillacs e a idealização de uma geração perdida no entre guerras. A segunda coisa que pensei foram então naqueles flyers roxos em formato de roda da fortuna distribuídos pelo coletivo Namastê nas ruas da cidade baixa de Porto Alegre, minha cidade natal, que diziam com veemência que a depressão era resultado de uma vida sexual infeliz. O movimento de negação me veio instintivamente à cabeça, juntando as imagens das orgias do Osho com a de um estudante deprimido batendo punheta antes da prática meditativa online, sabendo que daquela bricolagem nada de novo poderia nascer, só repetição. Então decidi ir mais fundo e lembrar daqueles árduos meses de 2020, de quando era datado o guia: a pandemia que havia se alastrado pelos continentes por um inimigo invisível, inderrotável, o lockdown decretado em várias cidades no mundo, menos no Brasil, que cavava cada vez mais covas com o passar dos dias, com mortes aqui e acolá, um presidente estúpido e genocida indicando o uso de cloroquina para a desincfetação dos corpos gripados. O caos estava instituído e lembro que, em uma tentativa de ficar menos ansiosa e gastar um pouco as milhares de calorias ganhas com as taças de vinho e caixas de bis, comecei uma prática de exercícios, todas as segundas e quartas, para movimentar o corpo, suar um pouco, enfim. Foi numa dessas práticas, uma noite, que lembrei da raiva que tinha do mindfullness como método neoliberal de conquista dos jovens da elite branca brasileira, ou ainda, meditar para esquecer da merda que fazemos diariamente com os outros e com o mundo a partir desse jeito que decidimos viver. Acredito que, mais do que uma prática, o mindfullness configurou uma geração: uma parcelo de jovens instruídos, universitários que, cansados dos seus cursos de administração ou engenharia e da função trabalhador-do-sistema, ainda que críticos à Marx e adeptos do pensamento liberal, decidiram encontrar nas imersões em banheiras de gelo e retiros com coachs uma força vital que, pasmem, existe dentro de nós e deve ser explorada. Não me entendam mal, caros leitores. Eu mesma fui praticante de yoga por anos e admiro à pratica meditativa, assim como a consciência corporal e tudo que estiver ligado à conexão de energias e desejos. Mas essa coisa de meditação neoliberal é mais um produto a ser comprado na promoção do Rappi, sem nenhuma consciência de fato dos meios e bolhas em que isso se propaga. Vejamos, sobre aquela noite de segunda-feira: no início da aula, o professor decidiu perguntar aos alunos, que eram mais fotinhos ao lado direito da tela, rostos que não conhecia e também não fazia muita questão de conhecer, o que estavam sentindo naquele momento. Foi então que a geração mindfullness respondeu: estou tranquilo / me sinto bem / estou nervoso pela quantidade de trabalho que preciso fazer / estou sem foco / etc. Naquele momento fiquei embriagada mas sem álcool, abri o microfone, que estava mutado, e disse: eu estou me sentindo receosa, não sei para onde vamos com o mundo – e vocês, seus antolhados, também deveriam estar se sentindo assim, coisa que eu não falei mas queria. Buenas, fizemos lá nossos exercícios, suamos, foi bom. A aula estava no fim, o professor, como de praxe, nos colocou para respirar a fim de acalmar o coração que pulava para fora do peito, quando comecei a ouvir o panelaço acontecendo. Naqueles tempos, religiosamente, às 20:30h da noite, o bairro gritava, as vozes ecoavam pelas ruelas altas de paralelepípedo, e o Jardim Botânico inteiro ressoava pedindo a saída do presidente, meio à vaias e palavras de desgosto, xingamentos, às vezes algumas melodias de resistência como bella ciao nos clarinetes dos músicos vizinhos. Lembro de todos aqueles gritos entrarem pelos meus ouvidos, um a um, e me pedirem para que eu me mexesse, que saísse daquela posição impotente, escrota de pernas cruzadas, com as costas doendo, de ignorância do que estava acontecendo lá fora, de “ei, você, estamos aqui tentando existir!” ou resistir, já não sabia mais o que era. Mas não me mexi. Por respeito ao professor, fiquei ali, o panelaço fervendo na rua e eu, como uma monja brasileira branca e reprimida, sentada, respirando, pensando em tudo menos do que meu eu interior, meu dentro, só o que existia era o fora. Então as panelas cessaram e o bairro ficou silencioso. A voz do professor que guiava a meditação anunciou o fim e, mais uma vez, pediu a cada um que falasse sobre seu sentimento. Missão cumprida, foi uma das frases de um dos meninos da geração mindfullness. Missão cumprida de que, porra?, pensei. Mas também não falei nada. Lembro que minha contribuição foi: precisamos de momentos como esse, de cuidado de si, no meio deste caos. É verdade. Mas não naquele momento. Me levantei e saí aos berros pela casa xingando tudo pela frente, abri a janela e gritei como quem nunca experimentou a potência da própria voz o grito de guerra do momento, “antes tarde do que nunca”. Lembro também de pensar com receio que, talvez, essa geração mindfullness talvez nunca chegue ao tarde, se perca no próprio meditar nonada e na fritação dentro do balde de gelo só para chegar a conclusões mais espertas sobre o alcance de sua empresa júnior, do lucro que iriam ter com a venda de máscaras personalizadas e das múltiplas maneiras que poderiam empreender a partir do seu confinamento em casa. Por fim, a quarta e última lembrança foi sobre como sempre odiei essa ideia mercadológica de consciência. Mindfullness pra quem? Ou melhor, como seria possível atingir um estado de consciência plena enquanto que o pensamento funciona como máquina visando sempre o lucro? Amassei o papel com a mão que não estava segundos taça de vinho e me vi angustiada com tantas lembranças. Fazia tempo que não fazia esse resgate de mim, dos meus sentimentos e críticas pessoais do mundo e dos outros. É uma prática não recomendada para o trabalho de uma palimpsista. Afinal, temos que ser neutros, constantes, não podemos nos relacionar com o que quer que esteja escrito. Mas o guia despertou um passado da sociedade que sangra, que arde em mim, e que talvez eu não esteja tão preparada para retomar. Talvez esteja eu precisando de novas práticas para acessar minhas consciência. Semana passada chegou um e-mail com uma promoção de um curso de meditação transcendental, para parcelar em doze vezes o pensamento sobre as relações futuras. Talvez eu faça. Mas talvez o que eu esteja mesmo precisando é estar no meio destas consciências plenas. Fugir para o topo da montanha no Nepal? Este trabalho está cada vez mais me isolando em casa. Às vezes fico dias perdida em letras e mais letras, esqueço de cruzar a porta. Mas até que ponto podemos nós, hoje, sair lá fora? Sirvo um copo de gelo para o vinho, que fica aguado, mas faz calor, e não me importa. Abro o papel todo amassado e vou, letra a letra, deformando a forma, tentando, de algum jeito, recuperar a essência perdida do ying e do yang, das ideias de Lao-Tsé e de qualquer base da yoga que um dia eu aprendi e que tenho certeza que também aprenderem os idealizadores de todas essas empresas neoliberais da consciência. Mas não consigo, as palavras têm força própria e estancam, a energia do empreendedorismo estancada na celulose velha. Amasso o papel de novo, assumo a raiva e a memória e o jogo no cesto ao lado da mesa. Tem noites como as de hoje que dou baixa nos arquivos e acesso o meu pessoal. Talvez seja este um resquício dos panelaços daquela época em que era jovem e revoltada ecoando pelos cantos do meu quarto empoeirado. É preciso tomar consciência do papel e dos limites da função-trabalho e da própria profissão. E por mais que eu ame o que faço, tem dias que é simplesmente impossível fazer o que foi pedido.

 

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