o eco dos mortos é diferente

é um domingo ensolarado, caminho pelo parque à procura de algo que não sei bem o que, paz, alívio, sossego, inspiração, pássaro, fonte, pique-nique, mas só o que se apresenta são vazios e poucos passantes, um silêncio lapidal que mais configura o parque como um cemitério. há uma grande chance de que talvez esse parque tenha sido construído sob as milhares de covas que tomaram durante um tempo a cidade, antes de serem soterradas, é sim, afirmo para mim mesma, uma grande possibilidade. a cidade foi toda reconfigurada muitos anos atrás, para reativar os espaços públicos, como disseram eles. a referência do plano diretor era o de barcelona, com seus estacionamentos no subsolo das praças, mas multiplicada de uma maneira para muito além dos parkings, da rotação de carros alugados para os corpos alugados, em uma tentativa de afundar ou soterrar a memória da luta armada que travou-se após os parques, as praças, os terrenos baldios, os shoppings não, claro que não, mas todo o resto da cidade virar um grande cemitério. não que os terrenos baldios já não fossem cemitérios, enfim. o parque então virou cemitério pelas mais de quarenta mil lápides que foram se espalhando pelas ruas, o asfalto virando extensão das pedras com inscrições de saudades, até que os moradores da zona sul falaram basta!, não tem mais como isso ficar aí na rua, os corpos jogados de qualquer maneira, contaminando a calçada-mosaico-portugês, ó saudade de quando se caminhava por essas ruas e só o que se via era o mar e os verdes morros, isto não tem mais jeito, temos que mover as mortes para outro lugar, atrapalha a vista. então assinaram um baixo-assassinato, eram como que trezentos, vestiram suas máscaras brancas que mais tapavam os olhos do que qualquer coisa e começaram a mover as lápides para os parques, longe das suas portas. então viraram cemitérios, os parques. e agora, nesse meu caminhar sem fim, o sol parece refletir o cheiro dos corpos que sobem da terra, como o cheiro da terra molhada quando chove, mas não chove fazem meses, então o que sentimos mesmo são os cadáveres. talvez por isso o silêncio. talvez por isso os parques não mais são barulhentos, as crianças não correm mais por aqui, não brincam. talvez por isso os parques têm grades e na verdade sempre foram subutilizados pela população que prefere as praias ao verde do mato. talvez também pelo cheiro e pela ausência de som.

então caminho e bato minhas pernas uma na outra pelos caminhos bem desenhados pelo concreto, lembrando rotas e circuitos de corrida, um ou outro esportista passa por mim, sério, em linha reta, enquanto forço-me à sair da rota e a pisotear a grama de vez em quando, por mais que não se possa fazer isso, ah de quem pisar na grama! ela é propriedade privada. o motivo de meu passeio pelo parque é ansiedade. na manhã da última sexta-feira recebi um arquivo para reescrever que mexeu com minha cabeça. passei um tanto mal. tratava claramente de um arquivo sigiloso, que passaram para mim por engano, acredito, pois não é qualquer palimpsista que recebe este tipo de arquivo para reescrever. o texto era composto de gráficos e mais gráficos e curvas que estavam sempre aumentando, números em acensão de uma crise sanitária que o mundo passou mas que, curiosamente, não recebemos muita informação hoje do que se tratou. sabemos o que foi, claro. vivemos isso. mas a informação não existe. foi enterrada, junto com os corpos. e bom, recebi aquele apanhado de gráficos e de números que tinham o selo do governo neles, foi quando me assustei, ao ver o selo. com certeza não era para eu ter recebido aqueles arquivos. não pude fazer nada na sexta, quero dizer, como reescrever aqueles dados que, de certa maneira, poderiam trazer à tona hoje a comprovação da maneira irresponsável e inclusive assassina com que o governo lidou com a crise na época? arquivos que comprovavam um projeto de morte por parte do poder político, números que acarretaram em confrontos bélicos e em um grande projeto de reurbanização dos parques. tudo ali, em minhas mãos, por engano. não me senti capaz de lidar com tudo aquilo, com uma responsabilidade que de certa maneira poderia colocar em risco meu trabalho, minha imagem, minha própria vida. mas também sabia que não tinha nenhuma condição de reescrever aqueles arquivos, de transformá-los em qualquer coisa que seja, poética, política, não importa. há textos que não devem ser reescritos. há memórias que não devem ser apagadas. não, me nego a isso.

então em um certo ponto do parque visualizei uma cúpula de cimento cinza gasto, logo acima de um pequeno morro, com algumas faixas amarelas e pretas onde se lia “restaura-se, não passe, blablabla”, com o objetivo de impedir a entrada de qualquer naquele espaço sonoro. tinha vindo ao parque com uma ideia infantil e inocente de me submergir em ruído, barulho, gritos, e nada. somente pique-niques chatos e grupos imersos na virtualidade das redes individuais, um que outro cachorro latindo mas sempre sob pedidos para que ficassem calados. eu, também, me senti pressionada a não fazer nenhum barulho. mas a cúpula, assim, daquele jeito estático e impedido de existir em sua função original, de risadas, conglomeração, brincadeira, pareceu-me uma ótima ideia, diante da minha busca pessoal por algum som, que fosse, qualquer um, rã, cigarra, passarinho, não sei, alguma coisa para sacudir minha cabeça e me dar alguma ideia do que fazer com aqueles documentos selados pelo governo de anos atrás. então cruzei a grama privada inspirando fundo o ar dos corpos que tinha certeza que por debaixo de mim estavam, até chegar no meio da cúpula, que era pequena, mas suficiente para dois. observei em silêncio à escuta das intromissões que queria ouvir, mas tampouco obtive sucesso. nada mais ressoava ali.

foi então que gritei. gritei com todo o ar que tinha dentro do pulmão e, como se tivesse levado um soco na cara, o eco de mim reverberou de uma maneira gigante por todo meu corpo, todos os menores e mais secretos lugares de meu corpo, como se várias balas de borracha estivessem se chocando contra mim dizendo: ei! não pare de gritar! como quando gritávamos pela janela. toda noite, gritávamos. mas, diferentemente da cúpula, o eco se fazia em vários, pois um gritava e o outro repetia, ou gritava diferente, as palavras eram outras mas o sentido era o mesmo: raiva, indignação, cansaço, impotência, dor. gritávamos pelos mortos, que já não nos ouviam. gritávamos pelos vivos, por estarem vivos. e ecoávamos. panelas, timbres, tons, madeiras, chocalhos, vozes graves, agudas, médias, crianças, mulheres, homens: o eco de nós era, por alguns segundos, construtor de sujeito, um eco-eu-você-nós, eco-sujeito na enunciação coletiva de uma luta que estava a se armar, antes mesmo de pegarmos em armas e do som se materializar em explosão, de quando acreditávamos no poder da linguagem, do contágio pela janela. o combate pelo grito comum. mas que não foi suficiente, pois não cessavam de cair mortos na rua que se misturavam ao cimento recém posto nas avenidas principais. obras de restauração das vias, eles disseram. e, enquanto alguns acreditavam naquela ladainha, nós gritávamos pelas janelas, ficávamos sem voz, ecoando, cada vez mais alto, tão alto que acabamos um dia também nós sobre o asfalto, pisando na iminência da morte, pois não sabíamos mais o que fazer. precisávamos reocupar as ruas. então vieram mais lápides, e dessa vez por tiros.

e eco dos mortos é diferente. ele tem cheiro e tem presença, ele vem do chão e vem do céu, como entidade, se alastra pelo meu corpo enquanto lágrima e desce pelo rosto confuso, solitário, mudo. ele não grita, pois não tem mais potência vital para isso. não há mais vozes nos parques, foram todas soterradas onde hoje levantam-se as placas de “não pise na grama”. como deixamos isso acontecer? o eco dos mortos reverbera em cada um, mas como isso não foi suficiente para prestarmos um pouco mais de atenção ao entorno, ao mundo, ao tempo presente, às atrocidades que nos cercavam, à incondição de vida? grito na cúpula e ela me devolve um eco que é maior que eu: são vários que ascendem e imploram por revolta, por um último beijo molhado na bochecha do irmão.

reescrever, apagar, transformar aqueles gráficos, números, evidências, seria simplesmente mais um projeto de morte, de reforma dos espaços públicos, não dos parques, mas desse eco de vozes que foi interrompido. deixo a cúpula que já se torna miragem à distância, o ponto cinza que se desfaz no verde dos morros, aqueles mesmos morros que antes eram paisagem, que já pegaram fogo, verdes replantados, mata-atlântica que virou fumaça, papel e depois pinheiro, o verde que é réplica, reconstrução, simulacro, assim como o parque-cemitério e o cemitério-parque. porque não deixaram as lápides ali, à mostra? talvez para não disseminar o cheiro de morte a cada montante de água que cai. porque o maior projeto de morte de um governo é a deslembrança. a deslembrança que se perpetua no mutar das vozes, desse eco que já foi gigante e que, de vez em quando ressurge, renasce nos corpos vivos dos outros, como esperança, e então corre outra lágrima pelo meu rosto porque é meu corpo e é só eco, dos outros, de nós, dos que precisamos lembrar para poder reconfigurar o presente. a paisagem de nós, mas também de mim. caminho pelas mesmas vias pavimentadas por onde vim, preciso chegar em casa e botar as mãos naqueles papéis, lamber os selos para que fiquem vívidos e molhados como um beijo, encontrar um plano de ação. como reescrever sem soterrar? como manter a prova da existência da irresponsabilidade em um outro projeto de luta, que inscreva-se, nas entrelinhas, sorrateiramente, como um eco de combate? nunca foi tão desafiante o exercício da tradução.

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hoje é segunda de manhã, o dia está cinza mas não importa. saio correndo pela porta da frente para entregar ao meu amigo jornalista a reescritura dos gráficos, do selo governamental já seco, como um vazamento de arquivos anônimo que, nem eu, nem ele, sabe como saiu dali. pisco com o olho esquerdo ao entregar-lhe o envelope e ele me pergunta se eu sei o que estou fazendo. aceno com a cabeça em um movimento de sim. nos próximos dias estará em todos os cadernos da cidade os vários projetos de armas sônicas desenhados e executados em ameaça direta ao governo durante a crise passada,  incluindo uma super escuta acústica clandestina posicionada em frente ao palácio do governo, camuflada como escultura assinada falsamente por Romero Britto, presente muito bem recebido pelo presidente, que sentiu-se lisonjeado em ter sua própria cara esculpida em milhares de cores e estampas bregas à frente da arquitetura modernista monumental que já não fazia mais jus à produção artística nacional; ataques sônicos estes que nunca foram divulgados porque nunca existiram, em planos de execução e plantas de engenharia, explicando passo a passo seu funcionamento, além dos inúmeros relatos ficcionais das pessoas que participaram da ação de coleta de dados e, claro, as informações confidenciais, os gráficos e números que estavam ali, nos documentos selados e entregues à mim por engano, coletados durante a ação e agora, anos depois, divulgados pela imprensa. o palimpsista encarregado de receber tais documentos nunca soube que os receberia, pois a ética da distribuição de textos não permite esse tipo de rastreamento. um ataque dirigido à retomada do passado, através do que não aconteceu, para imprimir no presente a necessidade de uma movimentação, de uma reverberação do que nos foi silenciado, das desculpas que nos foram dadas para as tantas reformar, tantos aterramentos, para o projeto de extermínio que durante um tempo vingou no país. meu manifesto do que não aconteceu pelo que poderia ter acontecido. minha tacada escritural, minha tradução de guerra, meu bico como hacker analógica. respiro fundo o ar da rua movimentada à procura do cheiro de terra molhada, que não vem, pois só o que vemos é cimento e mais cimento e também porque não chove há mais de meses.

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hoje é sexta-feira de manhã. reverbera pelas redes um vídeo que mostra inúmeras pessoas reunidas em protesto, deitadas sob a rua pavimentada, formando uma multidão de corpos que se sobrepõem, um em cima do outro, moles, como cadáveres que se misturam com o cinza do asfalto, enquanto ecoam, durante mais de dez minutos, a frase: “não consigo respirar”.

o eco dos mortos é diferente. ele vem de baixo, tem cheiro e presença, e ressoa nos corpos vivos a importância de lembrarmos, dia após dia, que a vida é um direito.

e que precisamos estar constantemente lutando contra sua captura.

 

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