o dia em que a rua virou dançante e todo mundo voltou a se falar

foi um longo processo, esse do distanciamento, da pausa na vida como um todo, como música que trava na vitrola, e então esse vazio que nos preencheu, nos cercou de eco morto, gente morta, pouco ou quase nada de trabalho, demissões e papéis vazios, solidão. me senti muito sozinha longe das palavras. o trânsito que antes me atravessava de vogais e impasses e confusões e paródias virou ventania anunciando o apocalipse: aquela que não traz nem umidade, nem quentume, nem o canto das cigarras, mas nada, só silêncio. as palavras me escaparam por um longo tempo. penso que nem chegavam a mim, nem de mim saiam: virei muda, e quando falava era para vomitar, uma verborragia sem pé nem cabeça de toda essa falta das palavras mundanas, dos sentimentos leves que chegam com a poesia do dia bem vivido e cheio de vontade de falar. seguimos enclausurados, mas a volta para a cidade maravilhosa, ou melhor, a ida definitiva para o lugar que mais transborda poesia, se aproxima, e com ela o decantamento de uma adultez, a composição de um lar próprio onde, na própria perspectiva de futuro próprio, voltei a me encontrar. fui resgatada desse vazio como um peixe que deita no anzol para subir ao ar, enganando a própria sorte, desejando viver algo entre o extremo do que podem suas guelras. na subida meus tímpanos foram se destampando, e a música voltou a fluir, lenta e brevemente, como um suspiro, um alívio, de poder olhar para frente e não ver apenas cinza, mas cores, luzes, uma composição inteira ali, se desenhando, e estendendo a mim a caneta. minhas mãos balançam com o ritmo e vão traçando uma rua quase impressionista, na qual lê-se:

“a rua toda dançava e não havia que não dançasse: era impossível ver qualquer ser dando um passo que não fosse torto, para o lado e para o outro, ai bota aqui meu pézinho bem juntinho do seu, ouvia-se o cantar, e os quadris que ora envolviam-se em círculos ora em escorregas. naquele dia a rua era dançante e os carros que passavam olhavam com um misto profundo de horror e admiração. alguns pararam e se deixaram contagiar, outros fechavam as janelas rapidamente para que seus integrantes mantivessem-se atados aos assentos. cada gente avançava em um ritmo diferente, e naquela rua era possível perceber uma nova interação que consistia em investigar o ritmo e o compasso do outro, traduzindo um flerte irresistível que fazia até os pares se transformarem em trios e assim por diante. meus braços tinham motor próprio e não mais respondiam ao meu querer, que também já estava bastante condicionado a dançar. não havia música no ar, mas todos ouviam um som. era como um vento que fazia rajadas brincantes, doces melodias ritmadas sussurradas a cada ouvido presente, como um vento que anuncia o verão mas risonho, secreto, contente. no final da rua os efeitos já passavam, e pude observar a cena com maior parcialidade, apesar do dia que se ia e das pessoas que também já voltavam para as suas casas. era um refúgio do tempo, nos cem metros de comprimento da quadra, em que a vida podia ser diferente. nem horizonte, nem projeção, mas um presente de dança como forma de encarar o mundo, uma armadilha para aqueles que passam e ficam. e só sabem dançar.”

não sei se as palavras são minhas ou se são de outros, mas sei que não mais me escapam, e sim, me preenchem. a data é de todo dia e a assinatura é anônima como se não existisse, dando espaço para quem quiser assinar. o papel que cai do céu e que trouxe um quero-quero que deu um rasante em nós. palavras bonitas que enchem meus olhos de lágrimas, de “que bom viver esse dia”, e meus olhos encontram os olhares curiosos das duas crianças no banco de trás do Gol vermelho, que me olham passar saltitante como Pina. o semblante infantil da parte de trás do carro sugere que talvez as crianças de hoje em dia não dancem mais. e então o vidro fumê que esconde o possível sorriso cria uma outra relação com aqueles dois desconhecidos, a máscara dos motores, o tecido que estabelece uma barreira entre nossas bocas e tudo que queremos gritar “vem! vem dançar!”. é que se não vemos mais a pronúncia podemos, pelo menos, ver como se traduzem estes versos nos outros membros do corpo. inventar uma outra linguagem para se comunicar. e a boca que vira poro e pêlo abre e fecha querendo beijar porque o pancadão começou a tremer tudo e se fez calor. o verão chegou muito ventoso e quase atípico, e a verdade é que já quase inventei a saudade de minha terra natal. mas é aí, penso, que reside a beleza da mudança, como um incentivo para inventar novos sentimentos, num puro gesto de poesia, para sentir mais e mais. e a nuvem de fumaça asfixiante que tinha interrompido os dias se desfaz, assim, com o raio do sol, o raio quente que trouxe o vento ou o raio que dispara o pisar torto no ar, e por um breve segundo parece que tudo vai ficar bem. e tudo vai. no dia em que a rua virar dançante e todo mundo voltar a se falar.

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